quinta-feira, 17 de março de 2011

Heloísa Helena é uma velhinha


Ícone da esquerda combativa, a senadora irá disputar a Presidência pelo PSOL, conta porque só veste camisas brancas E calças jeans, não usa maquiagem e está sempre de cabelo preso, é mãe de dois jovens e revela como reencontra suas raízes sertanejas 


Popular, Heloísa não anda mais pelas ruas, aeroportos
ou aviões sem ser abordada e elogiada até mesmo
por adversários
Há sete anos, quando entrou no Congresso Nacional pela primeira vez, a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) parou diante da rampa do imenso monumento, mirou o céu de Brasília e, assustada, rezou. “Pedi a Deus força para todos os dias vencer a vaidade e renegar o luxo”, conta. Nesse momento, tomou algumas decisões: resolveu deixar para trás as maquiagens, adotar como uniforme para o trabalho blusa branca e calça jeans desbotada, manter o cabelo sempre preso em rabo de cavalo e rejeitar o carro oficial com motorista, a que tinha direito. “Fui testada pelos rituais esnobes, cínicos e mentirosos, porém sedutores, e não me dobrei. Isso me dá uma suprema satisfação moral e uma vontade imensa de gargalhar”, diz a senadora, que vê sua popularidade crescer tanto pior fica a crise do partido do governo, o PT, do qual foi expulsa em 2003. “Você não sabe o quanto sofri. Levei meses acordando todas as noites, várias vezes chorando sem acreditar no que estava acontecendo.”
Mas a compensação chegou a galope. Seus gritos indignados da tribuna contra “as elites putrefatas”, “a corja de empresários salafrários” e “os políticos parasitas do poder” rendem admiração por todos os lados. Para a opinião pública, ela se tornou uma reserva da moralidade, tema crescente entre as prioridades dos eleitores. Heloísa não anda mais pelas ruas, aeroportos ou aviões sem ser abordada e elogiada até mesmo por adversários. “As pessoas me dão presentes, flores, livros. São tão gentis”, diz ela com meiguice. Aos 43 anos, seu nome chegou a ocupar a quarta posição em algumas pesquisas de opinião para candidatos à Presidência da República. “Acho que esse será o meu destino em 2006”, adianta, prevendo o resultado da convenção de seu partido. E não terá outra escolha mesmo. Só ela tem condições de conquistar votos suficientes para consolidar seu recém-fundado partido, o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, que hoje conta com nove parlamentares. “Já estou me preparando para voltar para a sala de aula”, diz, vislumbrando a pequena chance de chegar ao Palácio do Planalto. “E sei que serei recebida com beijos, flores e bolo de chocolate.”
Enfermeira por formação e professora de epidemiologia e planejamento dos serviços públicos na Universidade Federal de Alagoas, a combativa senadora começa a se despedir do Parlamento. Em casa, deu início ao processo de encaixotar as coisas. E haja caixa. Loló, como é conhecida na intimidade, adora fazer coleções. Sob a estante de sua tevê repousam várias pedras, de todos os tamanhos e cores que pegou ainda pequena no rio Moxotó, que atravessa o povoado de Poço Brandão no sertão de Alagoas onde nasceu. É lá que duas vezes por ano ela costuma andar de madrugada só para apreciar a floração dos cactos, hábito que mantém desde garota. “Eles dão flores lindas, coloridas e pequenas, visíveis apenas para quem tem os olhos de um sertanejo, como eu”, diz. “Lá me reencontro com a minha essência, me deparo com a história da menina pobre e sobrevivente que vivia com longas tranças no cabelo e pés descalços.”
A flor dos cactos ela não conseguiu trazer para Brasília, mas as orquídeas, representantes da Mata Atlântica, enfeitam seu apartamento desde que chegou à capital. “São as minhas queridinhas”, diz orgulhosa da beleza de cada uma delas. Sem constrangimentos, ela confessa desenvolver longas conversas com as flores, assim como se entende perfeitamente com Helen, ou Lili, a rotweiller que cria dentro de casa com a companhia de Amadeus, um gato que de tanto perturbar ganhou o apelido de Chatinho. “Ele mexe com as minhas orquídeas”, reclama. Loló ainda põe sempre numa das mesas de sua sala um vaso de angélicas, flor muito perfumada que, segundo ela, traz bons fluidos. “Acredito que elas atraiam anjos”, conta ela, revelando mais um faceta de sua personalidade:
a espiritualista.
Da coleção de imagens de São Francisco de Assis, seu santo de devoção, às citações de trechos bíblicos, que sempre procura encaixar em suas conversas mais íntimas, Heloísa expõe um lado que pouco combina com a feroz socialista conhecida por todos: o da católica fervorosa, freqüentadora assídua das missas de domingo. “Quando me dizem que a religião é o ópio do povo eu respondo que a fé é o ópio que suaviza minhas dores e me dá forças para ajudar a minimizar a dor alheia”, argumenta. É assim que ela não deixa que o ódio ou a vingança dominem sua atuação tanto na vida pública quanto na particular. Prova disso é que, apesar de ter sido expulsa do PT sob o comando do ex-ministro José Dirceu, que em seu caso agiu como um algoz, Heloísa não o critica e chega a dizer que sente muito pela sua cassação. “Ele errou, mas tenho certeza que tudo o que fez foi cumprindo ordens de seu chefe, o presidente Lula”, afirma.
Heloísa mora em Brasília com o filho caçula, Ian, de 19 anos, que cursa Direito. O mais velho, Sacha, 22, está passando uma temporada em Alagoas. Ela se casou duas vezes mas no momento está sozinha, ou prefere guardar em segredo os amores que conquista. O que se sabe é que há dois anos ganhou um piano de presente de um amigo secreto, um músico, que mora em Paris e que vez por outra lhe telefona para executar consertos. “Adoro quando ele toca Beethoven”, diz. Ela própria começou a dedilhar algumas canções e já se arrisca em alguns acordes de Chopin para iniciantes.
Da mulher sensível, meiga e terna, Heloísa Helena se transforma na política combativa, dura e teimosa como quem troca de roupa. Parece até uma grande contradição. Mas ela justifica a coerência dessa postura num pensamento de Santo Agostinho. “Ele dizia que a esperança tem duas lindas filhas: a indignação, de não aceitar nunca a injustiça, e a coragem para buscar sempre a mudança. Essa, em resumo, sou eu.”

4 comentários:

  1. Ela é uma excelente pessoa, mas ouvi de vários psolistas que ela agiu contra o estatuto do psol ao apoiar Marina em vez de Plínio.

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  2. Viva a Tia Heloísa!

    Doido, o PSoL é um aglomerado de liberaizinhos assumidos que pensam que um socialista nasce numa baforada de maconha ou gozo numa vagina menor de idade. Ela discorda disso, sendo um dos raríssimos membros do PSoL CONTRA O ABORTO. Não é à toa que publiquei no meu blog um artigo puxando saco dela.

    Se fosse vegetariana e mais nova, eu me jogava de boca na vida política muito mais do que já estou e tentava casamento com ela.

    LENA, EU TE AMO!! =**

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  3. "PSoL é um aglomerado de liberaizinhos assumidos que pensam que um socialista nasce numa baforada de maconha ou gozo numa vagina menor de idade". Isso até o Bolsonaro diria. HH agiu com enorme oportunismo ao atropelar as decisões do PSOL e começar a falar a favor do aborto na campanha. O PSOL é um fracasso. Mesmo gerenciando o estado, seria igual ao PT.

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